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Adiar infraestrutura sustentável aumenta custo e reduz competitividade
Reduções de até 20% no consumo energético e economias operacionais em dois dígitos já são realidade em projetos brasileiros. Geração distribuída, refrigeração líquida e orquestração inteligente de workloads deixam de ser experimentos e passam a definir quem lidera infraestrutura digital na América Latina.
Data centers globais vão dobrar o consumo de energia até 2030, pressionados pela explosão da inteligência artificial. Cada GPU de nova geração queima mais watts que três servidores tradicionais juntos. No Brasil, cerca de 90% da matriz elétrica vem de fontes renováveis. Parece vantagem competitiva óbvia, certo? Só que na prática, a maioria dos CIOs ainda não sabe como transformar isso em redução real de TCO.
Silvio Ferraz de Campos, CEO da Positivo Servers & Solutions, tem uma tese clara. Sustentabilidade virou critério de negócio, não pauta de compliance. Em entrevista exclusiva à Computer Weekly Brasil, ele traça o cenário de oportunidades e gargalos para CIOs brasileiros que precisam equilibrar três pressões ao mesmo tempo: orçamentos enxutos, legados tecnológicos pesados e cobrança crescente por eficiência energética. Vale lembrar que o déficit de 106 mil profissionais de TI no país complica ainda mais esse quebra-cabeça.
Recentemente vimos apagões em grandes data centers globais atribuídos a falhas em sistemas de resfriamento. Com o aquecimento crítico das GPUs de IA, como você avalia o risco operacional de não investir em infraestrutura sustentável?
Silvio Ferraz de Campos (SFC): Quando uma empresa não investe em eficiência energética e em sistemas modernos de resfriamento, ela aumenta o risco de falhas. As interrupções ficam mais prováveis, especialmente em ambientes que já operam no limite por causa das demandas da inteligência artificial.
Investir em uma infraestrutura mais sustentável significa ter uma operação mais estável, segura e preparada para crescer. Não se trata apenas de atender exigências ou cumprir regras. É garantir continuidade. Evitar prejuízos. Manter o negócio funcionando sem surpresas.
O senhor afirma que sustentabilidade passou a ser "fator decisivo para competitividade". Para o CIO brasileiro que ainda lida com orçamentos enxutos e legados tecnológicos, essa frase soa mais como ameaça ou oportunidade, e qual é o primeiro passo pragmático para migrar de uma visão defensiva para uma agenda ofensiva de inovação?
SFC: Vejo a sustentabilidade muito mais como oportunidade do que como ameaça. Para o empresário brasileiro, que convive com orçamentos enxutos e ambientes legados, ela pode ser um caminho direto para ganhar eficiência e abrir espaço para inovação. Sustentabilidade, nesse cenário, não é gasto extra. É uma forma prática de reduzir desperdícios e tornar a operação mais competitiva.
O primeiro passo é entender onde a energia está sendo consumida hoje. Tem que olhar onde existem desperdícios. Com esse diagnóstico em mãos, já dá para adotar medidas rápidas. Otimizar cargas de trabalho, por exemplo. Melhorar o uso da infraestrutura atual. Iniciar uma modernização gradual dos servidores, priorizando tecnologias mais eficientes.
Quando a empresa começa a perceber ganhos reais, como redução de custos e melhor desempenho, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma obrigação. Passa a ser uma alavanca estratégica para competir melhor e inovar com mais segurança.
A matriz renovável brasileira é uma vantagem, mas o país também enfrenta instabilidade hídrica e intermitência de fontes como a solar. Como transformar essa "vantagem teórica" em vantagem operacional real? Há estratégias de diversificação de fontes ou de armazenamento de energia para mitigar essa volatilidade?
SFC: A matriz renovável do Brasil é, sim, uma vantagem importante. Mas para virar benefício real ela precisa de planejamento. Não basta ter energia limpa. É preciso garantir fornecimento contínuo e confiável, principalmente em operações críticas como data centers.
A melhor estratégia é combinar diferentes fontes de energia. Buscar modelos mais flexíveis, como geração distribuída. Outra medida cada vez mais relevante é investir em armazenamento. No fim, isso traz mais segurança para o negócio. Reduz riscos de interrupção., e garante uma infraestrutura preparada para crescer com eficiência.
Servidores otimizados para IA frequentemente significam GPUs de alta densidade. A Positivo trabalha com arquiteturas de refrigeração líquida integradas ao servidor ou soluções híbridas? Em que estágio está hoje a adoção de liquid cooling no Brasil e que tipos de clientes ou setores estão na vanguarda?
SFC: Sim, já trabalhamos com modelos híbridos. Eles combinam refrigeração líquida com soluções tradicionais. No Brasil, esse tipo de tecnologia ainda está no início. Mas já aparece em projetos que precisam de alto desempenho. Setor financeiro, por exemplo. Universidades. Centros de pesquisa.
Com o avanço da inteligência artificial, esse tipo de resfriamento deixa de ser algo específico. Passa a ser uma escolha estratégica para quem busca eficiência, segurança e crescimento sustentável.
E como lidar com o "stranded power", capacidade energética subutilizada em racks tradicionais quando se migra para infraestrutura de IA?
SFC: Em relação ao uso da energia disponível, muitas empresas têm capacidade instalada que não é bem aproveitada. Ao atualizar a infraestrutura e redistribuir melhor as cargas, é possível usar essa energia de forma mais inteligente, preparar o ambiente para os novos servidores de IA.
Muitos CIOs brasileiros enfrentam o dilema: é mais fácil avançar em sustentabilidade migrando tudo para hyperscalers – que investem em eficiência em escala – ou mantendo data centers próprios otimizados?
SFC: Grandes provedores de nuvem têm vantagem porque operam em escala global. Investem muito em eficiência. Mas isso não significa que o data center próprio deixou de fazer sentido. Ambientes on-premises bem planejados podem ser tão sustentáveis quanto a nuvem.
O ponto de virada acontece quando a empresa moderniza sua infraestrutura. Melhora o resfriamento. Reduz desperdícios. Passa a usar energia renovável sempre que possível. A partir daí, o data center próprio ganha eficiência, reduz custos, e ainda oferece mais controle sobre a operação.
No fim, o mais importante é ter uma estratégia clara. Tanto a nuvem quanto o data center podem ser sustentáveis, desde que a infraestrutura seja bem planejada e bem administrada.
Estudos indicam que cerca de 70% das grandes empresas brasileiras incluirão cláusulas ESG em contratos de TI. Na prática das negociações da Positivo, isso já se materializa em exigências concretas – como auditoria da cadeia de suprimentos, metas de eficiência ou compensação de carbono – ou ainda aparece mais como "checklist de marketing" do que como critério técnico de seleção?
SFC: Sustentabilidade deixou de ser apenas uma pauta institucional, passou a influenciar diretamente a decisão de compra. Hoje, muitas empresas avaliam ESG como um diferencial competitivo.
Na prática, quem consegue comprovar eficiência e transparência sai na frente. O cliente quer entender se aquela escolha vai reduzir custos, evitar desperdícios, gerar mais previsibilidade no longo prazo. A sustentabilidade passa a ser cada vez mais um critério de negócio. Pesa tanto quanto preço, desempenho e confiança no fornecedor.
Do lado das políticas públicas, quais instrumentos regulatórios, fiscais ou de financiamento têm se mostrado mais efetivos para destravar projetos de infraestrutura digital sustentável? E que capacidades institucionais o Brasil ainda precisa desenvolver para, de fato, assumir um protagonismo regional nesse tema?
SFC: O que mais ajuda a destravar projetos de infraestrutura digital sustentável são incentivos fiscais e linhas de financiamento. Eles tornam esses investimentos viáveis e atrativos. Quando o governo cria regras claras e estimula a modernização, as empresas ganham confiança para investir, para acelerar projetos.
O Brasil já tem iniciativas importantes nesse caminho: políticas voltadas ao desenvolvimento de data centers, incentivos regionais. Mas ainda precisa avançar em pontos essenciais para ganhar protagonismo. Criar padrões mais consistentes de certificação, por exemplo. Auditoria. Métricas claras de sustentabilidade.
Quando você conversa com CFOs e conselhos, como traduz a agenda de infraestrutura sustentável em números de TCO e payback? Que modelo de business case tem funcionado melhor para justificar investimentos em servidores mais eficientes, resfriamento avançado ou geração distribuída?
SFC: Quando converso com executivos financeiros e conselhos, eu levo essa agenda para o campo do retorno sobre investimento. Nesse contexto, a sustentabilidade significa reduzir custos e proteger o negócio com foco no resultado.
O que mais funciona é quando se apresenta números claros de economia e retorno. Mostrar em quanto tempo o investimento se paga, como ele fortalece a competitividade da empresa no médio e longo prazo.
Infraestrutura digital sustentável exige profissionais com competências híbridas: engenharia térmica, otimização de software, gestão energética, automação. O Brasil hoje forma essa mão de obra em quantidade e qualidade suficientes ou a escassez de talento já é um gargalo mais crítico do que o próprio financiamento para projetos verdes?
SFC: Hoje, o Brasil ainda não forma profissionais suficientes para acompanhar o ritmo de crescimento da infraestrutura digital. O país forma cerca de 53 mil profissionais por ano, mas a demanda já gira em torno de 159 mil. Existe um déficit claro de mão de obra.
Na prática, isso já virou um gargalo importante para muitas empresas. Sem profissionais qualificados fica mais difícil acelerar projetos de modernização e sustentabilidade. Por isso, o Brasil precisa investir mais em capacitação, ampliar parcerias com universidades e centros de formação, preparar talentos para essa nova realidade.
A explosão de aplicações de inteligência artificial está pressionando a demanda por poder computacional em uma escala inédita. Como equilibrar a necessidade de mais processamento, especialmente em cargas intensivas de IA, com a obrigação de reduzir consumo de energia, emissões de carbono e custos operacionais?
SFC: O grande desafio das empresas é crescer em capacidade de processamento para suportar a inteligência artificial., sem deixar que isso vire um aumento descontrolado de custos. Por isso, o equilíbrio passa menos pela tecnologia em si e mais pela estratégia de negócio. Como expandir com eficiência? Como garantir retorno sobre o investimento?
Que decisões arquiteturais fazem mais diferença na prática?
SFC: Na prática, as decisões que mais fazem diferença são aquelas que reduzem desperdícios, que aumentam produtividade. Isso inclui modernizar a infraestrutura para fazer mais com menos; adotar soluções mais eficientes; planejar o uso do processamento de forma inteligente; evitar picos de consumo e gastos desnecessários.
Você poderia compartilhar casos práticos em que soluções da Positivo Servers & Solutions tenham gerado redução mensurável de consumo de energia, emissões ou custos operacionais em ambientes computacionais? Que indicadores vocês usam para comprovar esse resultado?
SFC: Em projetos de modernização de infraestrutura, já conseguimos entregar reduções de consumo de energia de até 20%. Quedas relevantes nos custos operacionais. Economias em dois dígitos. Isso mostra que investir em eficiência não é apenas uma decisão sustentável, é uma decisão financeira inteligente.
Para comprovar esses resultados, acompanhamos indicadores claros: consumo total de energia do ambiente, eficiência no uso dessa energia, redução estimada de emissões. Esses dados permitem demonstrar, de forma objetiva, o impacto do projeto no orçamento e na operação do cliente.
Olhando para 2030, quais serão, na sua opinião, os principais diferenciais dos players que quiserem liderar o segmento de infraestrutura digital sustentável no Brasil?
SFC: Até 2030, vão se destacar as empresas que conseguirem inovar mais rápido, formar boas parcerias, crescer com eficiência, mostrar compromisso real com sustentabilidade. No fim, quem entregar tecnologia com menor custo e mais segurança vai liderar.
Se você pudesse enviar um e-mail de uma linha para todo CIO brasileiro que ainda adia a decisão de investir nesse tipo de infraestrutura, o que escreveria?
SFC: Se eu pudesse mandar um e-mail de uma linha para os executivos de TI, seria: "Adiar infraestrutura sustentável não economiza dinheiro, só posterga o problema e aumenta o custo lá na frente."
Definições técnicas
Data center: Instalação física que abriga servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede para processar, armazenar e distribuir dados em grande escala.
Liquid cooling (refrigeração líquida): Sistema de resfriamento que utiliza líquidos para dissipar o calor gerado por servidores de alta densidade, oferecendo maior eficiência energética em comparação com sistemas tradicionais a ar.
Stranded power: Capacidade energética instalada em data centers que permanece subutilizada devido a limitações de arquitetura ou distribuição de cargas computacionais.
Geração distribuída: Modelo de produção de energia elétrica próxima ou no próprio local de consumo, reduzindo perdas de transmissão e aumentando a autonomia energética.
Hyperscalers: Grandes provedores de nuvem pública que operam infraestrutura em escala global, como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud.
TCO (Total Cost of Ownership): Custo total de propriedade que considera não apenas o investimento inicial, mas também despesas operacionais, manutenção e custos indiretos ao longo do ciclo de vida de uma solução tecnológica.
ESG: Sigla para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança), conjunto de práticas corporativas que avaliam o impacto e a responsabilidade de empresas além dos resultados financeiros.
GPU (Graphics Processing Unit): Unidade de processamento gráfico otimizada para cargas intensivas de inteligência artificial e machine learning, com maior densidade computacional e consumo energético que servidores tradicionais.