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Déficit de formação em IA ameaça a agenda de 2026 dos CIOs no Brasil
As competências ligadas à IA estão mudando 66% mais rápido nas funções mais expostas à tecnologia, enquanto o Brasil ainda consolida as primeiras graduações específicas em IA. No Agentic Summit, executivos alertaram que esse descompasso ameaça a velocidade e a escala dos projetos corporativos até 2026.
O Brasil entra em 2026 com um paradoxo que nenhum CIO pode ignorar. O Barômetro de Empregos de Inteligência Artificial 2025, da PwC, mostra que trabalhadores com habilidades em IA recebem um prêmio salarial médio de 56%, ante 25% no ano anterior, sinalizando uma disputa intensa por um grupo ainda restrito de profissionais qualificados. Ao mesmo tempo, a Academia Brasileira de Ciências registra que as graduações específicas em inteligência artificial surgiram tardiamente e que o país só passou a estruturar cursos dedicados de forma consistente a partir de 2020, com atraso estimado de pelo menos uma década em relação às nações líderes.
Esse descompasso ganhou contornos concretos no Agentic Summit, realizado em 8 de dezembro de 2025, em São Paulo. Na ocasião, Sergio Gaiotto, Chief Data AI Officer da Claro, lembrou que a França já está na nona turma de graduação em IA, enquanto o Brasil ainda forma sua primeira geração de bacharéis. Entre a pressão por resultados rápidos e a lenta maturação da formação especializada, a agenda de IA corporativa passa a ser estrangulada por uma corrida por talentos que o sistema educacional não consegue alimentar na mesma velocidade.
A demanda acelera mais rápido que a formação
Os dados da PwC indicam que a IA deixou de ser um diferencial restrito a poucas funções técnicas e passou a reconfigurar o mercado de trabalho em múltiplos setores. O relatório aponta que, globalmente, as habilidades exigidas pelos empregadores estão mudando 66% mais rápido nas ocupações mais expostas à IA do que naquelas menos impactadas, um ritmo mais de duas vezes superior ao observado no ano anterior.
O estudo também mostra que 100% dos setores analisados ampliaram o uso de IA, incluindo áreas historicamente menos digitalizadas, como mineração e construção. Isso reforça a natureza transversal da tecnologia. Além disso, os setores mais expostos à IA registram crescimento de receita por trabalhador três vezes maior do que os menos expostos, evidenciando ganhos concretos de produtividade quando tecnologia e qualificação humana avançam juntas.
Para os CIOs, essa combinação de prêmio salarial elevado, expansão setorial ampla e aceleração na mudança de competências tem implicações diretas. Cada decisão de investimento em IA passa a depender da capacidade de atrair, desenvolver e reter pessoas em um contexto de competição global por talentos escassos.
Graduações crescem na velocidade da década acadêmica
A Academia Brasileira de Ciências descreve esse cenário como uma corrida em pista desigual. O documento “IA ganha graduações e rivaliza até com medicina na disputa por vagas” registra que a Universidade Federal de Goiás criou, em 2020, a primeira graduação pública brasileira dedicada à inteligência artificial. Desde então, surgiram iniciativas em instituições como a Universidade Federal da Paraíba, que combinam ciência de dados e IA em formações de cinco anos.
Em 2025, universidades como a PUC-Rio anunciaram novos bacharelados em IA, que passaram a disputar candidatos com carreiras tradicionais, inclusive medicina, sinalizando o aumento do prestígio da área. Ainda assim, a ABC ressalta que existe uma defasagem estrutural entre a criação de um curso e a entrada dos primeiros egressos no mercado. Uma graduação iniciada em 2025, por exemplo, só formará seus primeiros profissionais entre 2028 e 2029.
Esse ritmo acadêmico contrasta com o horizonte de planejamento das empresas, que precisam tomar decisões hoje para garantir projetos de IA operacionais em 2026 e 2027. Sem coordenação entre governo, academia e setor produtivo, o risco é que a demanda por profissionais em IA cresça de forma sistematicamente mais rápida do que a capacidade de formação estruturada no país.
O painel do Agentic expõe o custo do atraso
O painel do Agentic Summit que reuniu Sergio Gaiotto, da Claro, Tatiana Oliveira, CEO e fundadora da AI Brasil, Felipe Ribbe, diretor global de inovação e tecnologia das marcas DTC da Ambev, e Gustavo Bodra, CTO da Startse, funcionou como um diagnóstico prático de como esse atraso se manifesta no cotidiano das empresas.
Gaiotto destacou que menos de 1% dos executivos das grandes corporações brasileiras possuem formação técnica em IA, segundo estimativas discutidas no painel. Essa lacuna dificulta até mesmo a distinção entre um chatbot básico e um agente autônomo integrado a sistemas críticos, elevando o risco de decisões mal informadas sobre investimentos tecnológicos.
Tatiana Oliveira acrescentou que poucas organizações brasileiras completaram uma jornada robusta de dados, com governança consolidada e qualidade assegurada, apesar da crescente pressão de conselhos e CFOs por resultados rápidos com IA generativa. Na prática, equipes de tecnologia são empurradas para projetos de alto impacto apoiados em bases de dados incompletas e com escassez de arquitetos capazes de desenhar fluxos confiáveis e escaláveis.
O recado do painel para os CIOs é direto: sem letramento técnico mínimo nas lideranças e sem profissionais com domínio de modelos prescritivos e de arquitetura de dados, a tendência é multiplicar pilotos que não escalam e consumir orçamento sem retorno proporcional.
Empresas montam ecossistemas internos de formação
Diante da lacuna do sistema educacional, empresas passaram a construir ecossistemas internos de formação em IA. Gustavo Bodra, CTO da Startse, argumentou que essa formação só se torna efetiva quando a organização adota uma estrutura ambidestra, com um grupo dedicado à captura de ganhos de eficiência e outro focado na criação de novas fontes de valor.
Na avaliação de Bodra, organizações que tentam resolver o problema apenas por meio de contratações compram tempo, mas não alteram a dinâmica estrutural. É necessário ensinar as equipes existentes a usar IA no fluxo diário de trabalho e criar espaços para que times multidisciplinares experimentem modelos, revisem processos e aprendam com erros em ciclos curtos. Para os CIOs, o desafio passa a ser como proteger orçamento e tempo para essas duas velocidades simultâneas, em um contexto dominado por pressão trimestral por resultados.
Essa visão é reforçada pela Anbima, que lançou, em dezembro de 2025, um guia de boas práticas para contratação de sistemas de IA voltado às instituições do mercado financeiro e de capitais. O documento estabelece critérios que vão do mapeamento de necessidades à governança ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas.
O caso Ambev traduz a estratégia ambidestra
Felipe Ribbe apresentou um exemplo concreto dessa ambidestria em contexto de escassez de talentos. A Ambev mapeou cerca de seis mil tarefas de equipes de tecnologia, marketing e operações, classificando-as por potencial de automação e impacto no negócio. A análise revelou que 12% do trabalho estava concentrado em comunicações repetitivas, como vídeos, e-mails e mensagens com padrões previsíveis.
Ao automatizar esses fluxos com IA, a empresa liberou entre 40% e 50% do tempo das equipes de TI envolvidas, sem necessidade de ampliar o quadro. Esse ganho não elimina a demanda por novos profissionais, mas cria uma “capacidade oculta” que alivia o gargalo de curto prazo. Em paralelo, Ribbe destacou que a empresa mantém times dedicados à exploração de agentes e arquiteturas avançadas, mesmo sem previsão de retorno imediato, protegendo o espaço para aprendizado e inovação enquanto atende às demandas do dia a dia.
Talento em IA como componente da arquitetura de negócio
A convergência dos dados da PwC, dos alertas da Academia Brasileira de Ciências e das orientações da Anbima aponta para uma conclusão clara: a formação em IA deixou de ser apenas um tema educacional e passou a ser um componente crítico da arquitetura de negócio. Em poucos anos, o mercado brasileiro transformou a IA de diferencial competitivo em requisito padrão, sem que o país tenha construído uma infraestrutura de formação comparável à das economias líderes.
O painel do Agentic Summit mostrou que não existe solução única para esse cenário. Os CIOs precisam partir do pressuposto de que o mercado externo de talentos será insuficiente e que a própria empresa terá de se tornar um ambiente permanente de formação em IA. Isso implica tratar educação em IA como parte integrante da arquitetura de dados, da estratégia de automação e dos modelos de governança, e não como um apêndice da área de recursos humanos.
Em um contexto em que a França forma sua nona turma de graduação em IA e o Brasil ainda consolida a primeira geração, a vantagem competitiva estará com as organizações capazes de construir, dentro de casa, a ponte entre a demanda explosiva por inteligência artificial e a formação lenta dos profissionais responsáveis por fazê-la funcionar.
Definições
Modelos prescritivos: Sistemas de inteligência artificial que recomendam ações específicas com base em dados históricos, análises estatísticas e relações causais, indo além da simples previsão de tendências.
Estrutura organizacional ambidestra: Modelo em que uma empresa mantém, simultaneamente, equipes voltadas à eficiência operacional de curto prazo e equipes dedicadas à criação de novas capacidades e modelos de negócio de longo prazo.
Empregos aumentados por IA: Posições profissionais em que a inteligência artificial automatiza partes das tarefas, mantendo a decisão, o julgamento e a responsabilidade finais nas mãos das pessoas.