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Carnaval 2026: o teste de stress que separa arquiteturas elásticas das que caem

De 14 a 18 de fevereiro, 65 milhões de foliões vão despejar R$ 14,4 bilhões na economia brasileira. O Pix terá que processar milhões de transações por dia, e os algoritmos de IA precisam decidir em frações de segundo se aquela compra de abadá às 3h é legítima ou não.

Nos últimos cinco anos, o Carnaval virou um teste de fogo não planejado para a engenharia de sistemas críticos brasileiros, e o Pix, que hoje funciona como espinha dorsal dos pagamentos instantâneos no país, é o caso mais emblemático. São mais de 170 milhões de usuários cadastrados — perto de 80% da população. Outubro de 2025 fechou com uma média de 7 bilhões de transações no mês. Dezembro trouxe outro marco: foram 313,3 milhões de operações em 24 horas, girando R$ 179,9 bilhões.

A infraestrutura por trás disso tudo foi desenhada para rodar sem parar. Conecta todas as instituições financeiras num protocolo unificado que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas o desafio vai além de escalar servidores. Como evitar que os modelos de machine learning bloqueiem compras legítimas quando milhões de brasileiros estão pagando ao mesmo tempo? Blocos de rua, barracas na praia, camarotes. Tudo via celular, muitas vezes em redes 4G e 5G que mal conseguem dar conta do volume de gente concentrada num mesmo lugar.

A arquitetura elástica que sustenta pagamentos instantâneos sob pressão

O Pix funciona sobre uma arquitetura distribuída de microsserviços. Os Kubernetes coordenam tudo, e permitem que bancos digitais e fintechs adicionem capacidade computacional conforme a demanda cresce, sem derrubar o sistema. O Nubank, que atende mais de 100 milhões de clientes, passou por situações reveladoras ao longo de seus dez anos de operação. A equipe de engenharia documentou episódios em que a Amazon Web Services simplesmente "não tinha mais máquinas disponíveis" durante picos de demanda. Essa limitação física do provedor de nuvem forçou a busca por alternativas. A solução encontrada foi o sharding, técnica que fragmenta bancos de dados e espalha a carga entre várias regiões geográficas. Resultado: o sistema não colapsa quando uma única zona de disponibilidade satura.

Observabilidade em tempo real virou componente essencial. Ferramentas como New Relic ficam monitorando milhares de microsserviços ao mesmo tempo. Quando a latência passa de 200 milissegundos ou quando os erros superam 0,5% do total, os alertas disparam. Durante o Carnaval, as equipes de SRE (Site Reliability Engineering) trabalham em plantão integral. Dashboards atualizam a cada segundo. O dimensionamento automático vai ajustando os recursos com base em previsões históricas e análise preditiva. Mas a margem de erro é apertada. Calcular a menos significa sistema fora do ar, afetando milhões de usuários. Calcular a mais estoura o orçamento anual de TI.

O paradoxo da confiança em sistemas de IA para detecção de fraudes

Escalar horizontalmente resolve o problema de volume. Mas detectar fraudes em tempo real traz outro desafio. Uma pesquisa recente do IDC, patrocinada pela SAS, revelou algo curioso: 78% das organizações financeiras dizem confiar plenamente em sistemas de inteligência artificial. Só que apenas 40% investiram de verdade em governança, explicabilidade e salvaguardas éticas para tornar esses sistemas auditáveis.

Tem mais. A IA generativa — modelos tipo GPT adaptados para analisar transações — é considerada 200% mais confiável que machine learning tradicional. Isso apesar de o ML tradicional ser a forma mais consolidada e transparente de IA disponível no mercado. Esse descompasso entre confiança percebida e confiabilidade comprovada cria riscos sérios. Modelos opacos podem bloquear pagamentos válidos (falsos positivos que frustram clientes) ou liberar fraudes sofisticadas (falsos negativos que geram prejuízo) sem que as equipes de segurança consigam rastrear o raciocínio por trás da decisão.

Segundo analistas do Gartner, até o fim de 2026, 70% das instituições financeiras globais terão migrado para arquiteturas de streaming em tempo real para detecção de fraudes. Essas plataformas respondem em microssegundos usando edge analytics — processamento de dados perto da fonte, sem depender de data centers centralizados. A tecnologia Change Data Capture (CDC) captura mudanças nos bancos de dados no exato momento em que acontecem. Isso alimenta pipelines que processam informações antes mesmo de serem gravadas definitivamente. O resultado? A latência de análise despenca de centenas de milissegundos para menos de 10 ms. Na prática, dá para bloquear ou liberar um pagamento sem que o usuário perceba qualquer atraso.

Biometria comportamental e a nova camada de segurança invisível

A Nuvei, empresa global de infraestrutura de pagamentos, aponta que as estratégias antifraude eficazes para 2026 misturam biometria comportamental com análises preditivas baseadas em milhares de variáveis processadas ao mesmo tempo. Biometria comportamental vai além de senhas e reconhecimento facial. O sistema analisa detalhes sutis: velocidade de digitação, pressão na tela do celular, trajetória do cursor, frequência de erros ao digitar, até o ângulo de inclinação do aparelho durante a transação. Quando esses padrões fogem muito do histórico do usuário, a pontuação de risco sobe automaticamente. Pode aparecer uma camada extra de autenticação — reconhecimento facial ou código por SMS — sem bloquear a compra de cara.

A fraude de primeira parte, também chamada de "fraude amigável", virou um dos maiores desafios para as instituições financeiras. Nesse golpe, o próprio dono da conta faz uma compra legítima e depois contesta junto ao banco, alegando falsamente que não reconhece o débito. Isso força estornos indevidos que prejudicam tanto comerciantes quanto o sistema financeiro. Ao mesmo tempo, redes organizadas de "mulas" financeiras — gente que empresta ou vende contas bancárias para movimentar dinheiro ilícito — evoluíram bastante. Hoje usam IA generativa para criar documentos falsos ultrarrealistas e deepfakes de vídeo que conseguem enganar processos de KYC (Know Your Customer) baseados em verificação facial. Para detectar essas fraudes mais sofisticadas, é preciso cruzar dados entre várias instituições. As novas regras de segurança do Pix, em vigor desde fevereiro de 2026, começam a viabilizar isso por meio de sistemas de bloqueio automático compartilhados e rastreamento interinstitucional em tempo real.

O Carnaval como teste de produção em escala nacional

O Carnaval de 2026 vai jogar mais de R$ 14,4 bilhões na economia brasileira. A expectativa é de 65 milhões de foliões espalhados pelo país. São Paulo preparou 630 blocos de rua e espera receber 16 milhões de pessoas. O Rio de Janeiro projeta 8 milhões de foliões e movimentação econômica acima de R$ 5,5 bilhões. Para quem vende água, cerveja ou abadá na rua, o Pix deixou de ser só uma conveniência. Virou ferramenta estratégica: recebimento na hora, estoque girando rápido, zero risco de andar com dinheiro físico na folia.

Para as instituições financeiras, o Carnaval é um teste de stress em produção que não dá para replicar em simulações controladas. São quatro dias concentrando o volume de três semanas normais de operação. E o comportamento de consumo é completamente atípico. Compras pequenas (R$ 5 a R$ 50) disparam de madrugada, espalhadas geograficamente (blocos, praias, camarotes), feitas principalmente por celulares conectados a redes 4G e 5G congestionadas pela concentração massiva de gente. As equipes de TI ficam de olho em indicadores críticos: taxa de aprovação (quantas transações passam sem fricção extra), latência P99 (tempo que 99% das transações levam para processar) e taxa de falsos positivos (compras legítimas bloqueadas por engano pelos modelos de IA).

Maturidade técnica e o futuro dos pagamentos instantâneos no Brasil

O Carnaval 2026 marca uma virada definitiva para a infraestrutura tecnológica do sistema financeiro brasileiro. A maturidade técnica que o Pix exige hoje já se equipara à de plataformas globais consolidadas como Visa ou Mastercard. A diferença? Opera em escala nacional concentrada em picos sazonais extremos. As novas regras de bloqueio automático de contas fraudulentas, vigentes desde fevereiro, prometem elevar bastante o índice de recuperação de valores roubados — hoje menos de 10% — por meio de rastreamento interinstitucional coordenado em tempo real. Para os CIOs do setor financeiro, o desafio estratégico mudou. Não é mais só escalar sistemas para dar conta de volumes crescentes. É construir infraestruturas transparentes, auditáveis e resilientes o suficiente para sustentar a confiança pública num ecossistema digital que processa mais da metade de todas as transações de pagamento do país.

Definições técnicas

Microsserviços: Arquitetura de software que decompõe aplicações em componentes independentes, cada um responsável por uma função específica (autenticação, pagamento, notificação), permitindo escalabilidade e manutenção isoladas.

Kubernetes: Plataforma de orquestração de contêineres que automatiza a implantação, escalonamento e gerenciamento de aplicações distribuídas em ambientes de nuvem.

Sharding: Técnica de fragmentação horizontal de bancos de dados que distribui registros entre múltiplos servidores, reduzindo carga e aumentando throughput em sistemas de alta demanda.

SRE (Site Reliability Engineering): Disciplina de engenharia que aplica princípios de software para gerenciar infraestrutura crítica, focando em automação, observabilidade e objetivos de nível de serviço (SLOs).

Edge Analytics: Processamento de dados próximo à fonte de geração (dispositivos ou gateways de rede) para reduzir latência e viabilizar decisões em tempo real sem dependência de data centers centralizados.

Change Data Capture (CDC): Tecnologia que monitora alterações em bancos de dados transacionais e propaga essas mudanças para sistemas downstream em tempo real, permitindo pipelines de streaming de dados.

Biometria Comportamental: Análise de padrões de interação humana com dispositivos digitais (velocidade de digitação, pressão na tela, trajetória do cursor) para autenticação contínua e detecção de anomalias.

Fraude de Primeira Parte (Fraude Amigável): Esquema em que o próprio titular de uma conta realiza transações legítimas e posteriormente contesta as cobranças alegando desconhecimento, forçando estornos indevidos.

KYC (Know Your Customer): Conjunto de processos regulatórios que exigem verificação de identidade de clientes em instituições financeiras para prevenir lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo.

Latência P99: Métrica estatística que representa o tempo de resposta abaixo do qual 99% das requisições são processadas; usada para garantir experiência consistente mesmo em cenários de pico.

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