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Cloud 3.0: a nuvem ganha CEP

Durante anos, cloud foi tratada como sinônimo de escala global, centralização e eficiência. A nova fase da nuvem não abandona os hyperscalers, mas também não finge que todo problema pode ser resolvido do mesmo jeito em qualquer país.

Cloud 3.0, aqui, não é nome oficial de prateleira nem selo de consultoria com cheiro de keynote. É um jeito útil de descrever a nova etapa da nuvem. A Cloud 1.0 foi a migração do data center próprio para a infraestrutura compartilhada. A Cloud 2.0 transformou essa infraestrutura em plataforma de inovação, com serviços, APIs, analytics e IA. Já a Cloud 3.0 nasce quando a nuvem percebe que escala sem contexto é só um computador muito caro em outro endereço.

O tamanho dessa indústria ajuda a explicar por que o debate ficou mais sério. Segundo a Synergy Research Group, o mercado global de serviços de infraestrutura em nuvem fechou 2025 em US$ 419 bilhões, com US$ 119 bilhões só no quarto trimestre. Foi um salto anual de 30%, impulsionado principalmente pela onda de IA. No terceiro trimestre de 2025, Amazon, Microsoft e Google concentraram 63% dos gastos empresariais com infraestrutura em nuvem. Traduzindo: a nuvem continua enorme, concentrada e cada vez mais parecida com infraestrutura crítica de país, não apenas com ferramenta de TI.

Só que esse domínio global não encerra a discussão, ele abre outra. Quando três gigantes concentram a maior parte da infraestrutura, cresce também a pressão para adaptar arquitetura, dados e governança às regras de cada mercado. A nuvem segue global, mas a operação começa a ficar regionalizada. É a velha história do planeta digital descobrindo que geografia ainda existe.

A IA bagunçou a planta da casa

A inteligência artificial (IA) acelerou essa mudança porque ela consome computação em escala brutal e, ao mesmo tempo, exige proximidade com os dados. A Gartner apontou em 2025 que menos de 10% dos recursos de computação em cloud estavam ligados a cargas de IA naquele momento, mas a fatia deve chegar a 50% até 2029. A mesma análise destaca um movimento importante: em muitos casos, as empresas vão precisar levar a IA para onde os dados estão, e não simplesmente mandar tudo para um ponto central.

Esse detalhe muda bastante coisa. Porque treinar grandes modelos pode continuar fazendo sentido em ambientes massivos e centralizados, mas inferência, privacidade, latência e compliance pedem outra arquitetura. Aí entra o coração da Cloud 3.0: uma base global para escalar, combinada com camadas regionais e locais para executar o que exige contexto. Não é o fim da nuvem centralizada. É a admissão de que ela, sozinha, não resolve a vida real.

Soberania deixou de ser nota de rodapé

Em 2026, soberania digital deixou de ser assunto restrito a jurídico, governo e gente que ama uma sigla regulatória. Segundo a IDC (2026), 63% das organizações estão hoje mais propensas a adotar serviços de sovereign cloud por causa de eventos geopolíticos recentes. Isso significa que a fragmentação da arquitetura deixou de ser hipótese acadêmica e virou resposta prática a risco, regulação e dependência externa.

A Gartner foi ainda mais direta. Em fevereiro de 2026, a consultoria estimou que o gasto global com sovereign cloud IaaS chegará a US$ 80,4 bilhões em 2026, alta de 35,6% sobre 2025. Mais importante do que o número é o recado por trás dele: a empresa calcula que esse movimento vai deslocar 20% das cargas atuais dos provedores globais para provedores locais. Em outras palavras, não é que os hyperscalers saiam de cena. Mas agora eles precisam dividir o palco com arquiteturas, parcerias e operadores de sotaque local.

Esse avanço também é desigual, o que reforça a tese de que cloud não será mais uma história única. Pela mesma projeção da Gartner (2026), a Europa sai de US$ 6,9 bilhões em 2025 para US$ 12,6 bilhões em 2026 em sovereign cloud IaaS. Na América Latina, o salto vai de US$ 278 milhões para US$ 506 milhões no mesmo intervalo. Não é só crescimento, é reposicionamento estratégico.

É aqui que entram as soluções locais

É justamente nesse ponto que a estratégia mais ampla de cloud da empresa encontra a necessidade de soluções locais. Porque há demandas que não aceitam resposta genérica. Saúde, finanças, setor público, telecom, energia e infraestrutura crítica operam sob regras específicas, exigências nacionais e pressões de latência que não cabem no discurso simplista do “manda tudo para a nuvem e depois a gente vê”. A própria Gartner destaca que governos, indústrias reguladas e operadores de infraestrutura crítica lideram esse movimento.

Na prática, isso abre espaço para uma arquitetura em camadas. A cloud global continua sendo a espinha dorsal, especialmente para escala, resiliência e serviços avançados. Mas, na ponta, cresce a necessidade de aplicações, integrações, governança de dados e ambientes de processamento desenhados para exigências nacionais, setoriais e operacionais. É menos “substituir a cloud global” e mais “parar de pedir que ela resolva, sozinha, problemas que nascem no chão da operação”.

Os próximos movimentos que merecem atenção

Os próximos anos devem consolidar quatro movimentos. Primeiro, mais arquitetura híbrida e distribuída, porque a própria Gartner projeta que 90% das organizações adotarão abordagens de hybrid cloud até 2027. Segundo, mais pressão por soberania digital, alimentada por geopolítica, regulação e proteção de dados. Terceiro, mais cloud setorial, já que a consultoria também prevê que mais de 50% das organizações usarão plataformas de industry cloud até 2029. E quarto, uma nuvem menos abstrata, mais conectada a território, regulação e cadeia econômica local.

Por isso, falar em Cloud 3.0 é falar de uma nuvem que amadureceu. Uma nuvem que continua global, mas entende que valor real não nasce apenas da escala computacional. Nasce da capacidade de responder a exigências locais sem perder a espinha dorsal da estratégia global. No papel, parece uma equação elegante. Na prática, é o tipo de desafio que separa quem usa cloud como infraestrutura de quem usa cloud como vantagem competitiva. E a pergunta que fica é daquelas bem simples, portanto perigosas: sua estratégia de nuvem está preparada para o mundo real ou ainda está presa na fantasia da nuvem sem CEP?

Sobre o autor: Cristian Gallegos é diretor de marketing na Skynova, com trajetória voltada à integração entre estratégia, tecnologia e comportamento humano. Atua na linha tênue entre dados e propósito, explorando como a inteligência artificial, a cultura e a gestão podem coexistir de forma ética e criativa. Na Skynova, estimula iniciativas de inovação com IA no Marketing e demais áreas, conectando visão estratégica a práticas reais de negócio.

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