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Data centers brasileiros avançam em sustentabilidade

Impulsionado por inovação tecnológica, exigências ambientais de investidores e matriz energética limpa, setor acelera adoção de práticas verdes e auditáveis e já opera com padrões internacionais, avaliam especialistas.

A sustentabilidade tem se tornado uma estratégia operacional e financeira de data centers no Brasil, segundo executivos que participaram de evento online promovido pela DCD nesta quinta-feira (29).

Durante a conversa, Cora Nogueira, gerente de ESG da Elea Data Centers, e Sérgio Abela, diretor de Operações de Data Center da Ascenty, discutiram como o mercado brasileiro está se adaptando às crescentes exigências de transparência, métricas ambientais e dados auditáveis.

Tecnologias voltadas à eficiência são um pilar central desse movimento, destacaram os especialistas. Uma delas é o liquid cooling – sistema de resfriamento que utiliza líquidos em vez de ar para dissipar o calor. A solução oferece benefícios que vão além da eficiência energética, incluindo a preservação de recursos hídricos e a redução de gases poluentes.

“Estamos falando de um circuito fechado, sem torre de evaporação. Assim, não há perda de água, sendo necessárias apenas manutenções eventuais para evitar vazamentos”, explica Cora Nogueira. “Com o liquid cooling, também há uma redução drástica no uso de gases refrigerantes, que contribuem significativamente para o aquecimento global.”

Na avaliação de Sérgio Abela, a tecnologia já se tornou um pré-requisito nos data centers de hiperescala, projetados para operar com elevada capacidade e atender a exigências técnicas e certificações internacionais.

“É muito mais fácil utilizar o liquid cooling em projetos novos. Em plantas já em operação, é complexo adequar a estrutura e fazer um retrofit para instalar esse sistema. Não é impossível, mas é bem mais complexo e oneroso. Para novos projetos, porém, ele é indispensável. É um pré-requisito dos hyperscales”, afirma o especialista.

Além disso, o liquid cooling contribui diretamente para a eficiência operacional. “Quanto menos se gasta com itens como ar-condicionado e mais se investe em TI, mais eficiente é o data center”, pontua Abela.

Energia limpa é vantagem operacional

Além das tecnologias de resfriamento, o uso de energia limpa para alimentar os servidores também traz ganhos ambientais relevantes. Segundo o porta-voz da Ascenty, o Brasil detém uma capacidade de geração de energia renovável superior à de outros países da América Latina, o que favorece a adoção de operações mais sustentáveis.

Como as emissões associadas ao consumo de energia elétrica representam entre 90% e 95% das emissões de um data center, a ampla oferta de fontes renováveis permite que as empresas operem com níveis quase nulos nesse indicador, explica Abela. “É uma falácia dizer que data centers poluem no Brasil. É possível, de fato, zerar as emissões por meio da compra de energia renovável”, diz Abela.

Outro fator que contribui para esse cenário é o sistema elétrico unificado do país, que viabiliza estratégias logísticas e financeiras mais eficientes, como os PPAs (Power Purchase Agreements). “O Brasil tem um grid unificado. Então, por meio de um PPA, posso comprar energia de uma usina no Nordeste e abastecer um data center no Sul. Funciona como uma grande bolsa de energia”, exemplifica Cora Nogueira.

Mercado brasileiro amadurece mesmo sem regulação rígida

Embora o Brasil não conte com uma regulação governamental tão rígida quanto a europeia, o avanço da sustentabilidade no setor tem sido impulsionado pela responsabilidade das próprias empresas e pelas exigências dos clientes, concluíram os especialistas que participaram do evento.

Nesse contexto, instrumentos financeiros como os Sustainability Linked Bonds – títulos de dívida atrelados ao cumprimento de metas ambientais, sociais e de governança – funcionam como mecanismos de pressão contínua, ao submeter as empresas a verificações periódicas.

“Se a gente não atinge essas metas, paga mais caro por esse capital. Por isso, acredito que o ESG vai deixar de ser apenas um risco reputacional e se tornar um risco financeiro real, e também um fator de acesso ao capital”, resume Abela.

A expectativa do setor é que a implementação do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center no Brasil), que prevê benefícios fiscais para empresas que prestam esse tipo de serviço no país, acelere de forma significativa novos investimentos.

“Provedores de IA e empresas de tecnologia já têm projetos prontos e tecnologias disponíveis, mas estão aguardando a implementação do Redata para fechar contratos e iniciar as execuções. Essa previsibilidade é essencial para que os projetos saiam do papel e para que o Brasil se consolide como um grande polo global de IA”, projeta Abela.

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