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Falha do Cloudflare: impactos, lições aprendidas e conselhos de especialistas
Executivos da Check Point, StaryaAI, Veeam e Penso Tecnologia explicam detalhadamente o que causou a interrupção do serviço da Cloudflare e oferecem conselhos para que as empresas evitem incidentes semelhantes no futuro.
Na manhã desta terça-feira (18), a queda generalizada da Cloudflare, responsável por serviços globais de proteção e desempenho na internet, provocou instabilidades em plataformas como ChatGPT, Discord, Steam, X e Canva, bem como em diversos serviços financeiros e de cripto.
Sites de notícias, sistemas de pagamento, páginas de informações públicas e serviços comunitários no mundo todo ficaram paralisados. Isso não aconteceu porque cada organização falhou individualmente, mas sim porque uma única camada da nuvem da qual todas dependem parou de responder. Usuários relataram falhas de acesso, carregamento e autenticação a partir das 9h. As pessoas viram uma simples página de erro, mas a falha afetou os sistemas que sustentam os serviços essenciais.
Como a empresa atua como uma camada intermediária entre usuários e servidores, interrupções desse tipo têm efeito cascata e podem afetar milhões de serviços simultaneamente, gerando prejuízos significativos para organizações que dependem da infraestrutura.
A Cloudflare afirmou já ter identificado a causa e trabalha para mitigar os impactos. No momento desta publicação, muitos dos serviços que dependem do Cloudflare já estavam novamente online. No entanto, dentre as lições aprendidas com esse incidente, destaca-se o risco de centralizar tudo em um único fornecedor.
Segundo a Erik de Lopes Morais, COO da Penso Tecnologia, apesar dos avanços em cloud, resiliência e redundância distribuída, muitos ambientes modernos acabam convergindo para os mesmos grandes players. A Cloudflare é um bom exemplo. “A plataforma Cloudflare funciona como uma camada frontal para milhares de sites e aplicações, entregando performance, segurança e mitigação de ataques. Isso é poderoso, mas também cria um ponto único de concentração”, explicaz o executivo.
“A dependência de serviços terceirizados tem prós e contras. O lado positivo é evidente: alta disponibilidade, tecnologia de ponta, mitigação de ameaças e simplicidade operacional. O problema surge quando essa concentração vira dependência absoluta. Quando o provedor central falha, não importa se seu sistema está replicado, se há múltiplos datacenters ou se o DR está impecável. Tudo continua inacessível porque o gargalo está fora do seu alcance”, diz Erik.
De acordo com Marcio de Freitas, gerente de Engenharia de Sistemas da Veeam Software, eventos como esse evidenciam a urgência de estratégias que garantam portabilidade de dados, defesa de múltiplas nuvens e resiliência operacional, reduzindo o risco de interrupções em cascata.
“A instabilidade global registrada na infraestrutura de nuvem da Cloudflare reforça um padrão que se repetiu recentemente em interrupções de outros fornecedores de nuvem, afetando empresas que dependem exclusivamente de um único provedor. Esses incidentes expõem um ponto crítico: a concentração excessiva de cargas de trabalho em poucos players cria fragilidade estrutural e amplia o impacto de falhas”, alerta de Freitas.
Fernando de Falchi, gerente de Engenharia de Segurança da Check Point Software Brasil, avalia que a queda da infraestrutura de nuvem da Cloudflare segue o mesmo padrão observado nas recentes interrupções da AWS e do Azure: “Essas plataformas são vastas, eficientes e usadas em praticamente todos os setores da vida moderna. A vantagem é óbvia, pois sua escala mantém os custos baixos, torna as ferramentas de segurança mais acessíveis e oferece até mesmo a pequenas organizações o tipo de desempenho que antes seria impossível. No entanto, a desvantagem é igualmente clara porque, quando uma plataforma desse porte apresenta problemas, o impacto se espalha de forma rápida e ampla, e todos sentem os efeitos ao mesmo tempo.”
Impacto na segurança e resiliência dos negócios
A Cloudflare fornece serviços de DNS (Sistema de Nomes de Domínios), o mecanismo que converte os nomes de domínio em endereços IP. Quando esse serviço é interrompido, os navegadores não conseguem resolver os endereços e, então, as conexões com os servidores são quebradas. O resultado: muitos sites e serviços ficam indisponíveis mesmo que os servidores estejam operacionais.
Além do DNS, a Cloudflare opera uma rede de CDN (Rede de Distribuição de Conteúdo) que acelera a navegação ao distribuir cópias de conteúdo em servidores mais próximos dos usuários. Segundo a Check Point Software, uma falha na CDN obriga todas as requisições a chegarem ao servidor original, às vezes localizado a grande distância geográfica, o que torna o carregamento mais lento e aumenta a carga sobre a infraestrutura central.
O fornecedor de segurança explica que uma grande parcela da internet comercial depende de poucos provedores de infraestrutura para serviços críticos. “Quando um provedor importante como a Cloudflare enfrenta uma indisponibilidade, o impacto é amplo e imediato. Essa concentração cria um risco sistêmico em que uma falha localizada se traduz em instabilidade global. Uma interrupção desse tipo afeta disponibilidade, desempenho e confiabilidade dos serviços. Os usuários encontram erros de DNS, carregamentos demorados, falhas de login e pagamento, além de aumento nas taxas de erro. As organizações podem descumprir SLAs e sofrer desgaste na confiança dos clientes”, aponta Oded Vanunu, gerente de Pesquisa de Vulnerabilidades da Check Point Software.
Ele ainda alerta sobre “tentativas de contornar a falha por meio de mudanças apressadas de configuração, as quais podem expor servidores a problemas de segurança, remover camadas de proteção como WAF (Firewall de Aplicações Web) ou mitigação de DDoS (Ataque Distribuído de Negação de Serviço) e ampliar a superfície de ataque. Além disso, um gerenciamento inadequado de cache pode gerar vazamento de dados ou carregar versões incorretas”, diz Oded.
Do ponto de vista da cibersegurança, esta é a parte que importa. Fernando de Falchi, gerente de Engenharia de Segurança da Check Point Software Brasil, reforça que muitas organizações ainda utilizam uma única rota para tudo, sem um backup significativo. Quando essa rota falha, não há alternativa. “Essa é a fragilidade que continuamos a observar. A internet deveria ser resiliente por meio da distribuição, mas acabamos concentrando enormes quantidades de tráfego global em um restrito número de provedores de nuvem”, expressou Fernando.
Segundo a Erik de Lopes Morais, COO da Penso Tecnologia, o incidente mostra que continuidade de negócios não pode ser vista apenas como projetos de redundância técnica. Ela precisa incluir cenários de falha de terceiros, planos de comunicação, planos operacionais alternativos e processos que permitam ao negócio seguir funcionando mesmo quando o fornecedor da vez para.
“Distribuir riscos é tão importante quanto distribuir cargas. E, em um mundo onde cada vez mais empresas dependem dos mesmos poucos grandes provedores, isso precisa voltar à pauta de CIOs, CISOs e líderes de tecnologia”, alertou Erik.
Marcio de Freitas, gerente de Engenharia de Sistemas da Veeam Software, concorda com esse ponto: “Ressaltamos ainda que a indisponibilidade dos dados é hoje um dos eventos de maior impacto financeiro e reputacional para qualquer empresa. Estudos da Veeam mostram que interrupções prolongadas podem comprometer operações críticas, paralisar canais de atendimento, interromper pagamentos, travar a cadeia de suprimentos e gerar perdas milionárias, além de penalidades regulatórias. Quanto maior a dependência de um único provedor, maior o risco de paralisação total”, aponta.
Para fortalecer a continuidade dos negócios, a recomendação da Veeam é adotar uma estratégia de resiliência que combine distribuição, redundância, mobilidade de dados e independência de plataforma. A visão da Veeam do caminho mais robusto para a continuidade dos negócios inclui:
- Arquiteturas de múltiplas nuvens, capazes de distribuir cargas e mitigar riscos de dependência;
- Portabilidade real dos dados, permitindo mover workloads entre nuvens, on-premises e ambientes híbridos sem lock-in;
- Modelos de maturidade de resiliência, como o Veeam Data Resilience Maturity Model (DRMM), que ajudam organizações a identificar lacunas e medir sua capacidade real de recuperação.
Dicas para proteger seu negócio
Segundo Vinicius Reis, CTO e cofundador da StaryaAI, muitos dos maiores sites do mundo confiam na Cloudflare para proteger e otimizar seu tráfego. “Quando há uma falha em seu sistema central ou em um grande PoP, o impacto é global e atinge diretamente as plataformas que dependem de seus serviços de CDN ou segurança, o que explica a queda de sites tão variados como o ChatGPT e o X”, detalha o executivo.
Apesar da redundância presente em grandes provedores, falhas sistêmicas podem ocorrer. Vinicius Reis aponta as três causas mais comuns para instabilidades de grande escala:
- Erro de configuração (a causa mais comum): “Na maioria dos casos de grandes quedas globais, a causa é um erro humano ou um bug de software durante uma atualização ou mudança de configuração. Um pequeno erro em um roteador central pode se propagar rapidamente por toda a rede global, no chamado peering”, afirma Reis.
- Falha de hardware/roteamento: A falha física de um equipamento crucial, como um backbone router ou um servidor DNS primário, pode segmentar ou paralisar parte da rede.
- Ataque cibernético de grande escala: Embora os serviços de CDN sejam projetados para absorver ataques, um evento de negação de serviço (DDoS) inédito em volume ou complexidade ainda pode sobrecarregar temporariamente a capacidade de filtragem do provedor.
Para empresas que dependem da internet para operar e vender, a queda de serviços de infraestrutura pode gerar perdas financeiras e de reputação imediatas. O especialista sugere estratégias de multicloud e resiliência para proteger o negócio: “A lição mais importante é a redundância. Não se deve colocar toda a operação em um único provedor de CDN ou DNS. Implementar uma arquitetura multicloud ou multi-CDN significa que, se a Cloudflare cair, seu tráfego será automaticamente desviado para um concorrente como a Akamai ou Fastly, mantendo o site no ar”, explica Vinicius.
Fernando de Falchi, gerente de Engenharia de Segurança da Check Point Software Brasil, expressou: “Grandes plataformas trazem benefícios, mas eventos como esse mostram a urgente necessidade de se repensar decisões ao adotá-las para reduzir ou prevenir impactos negativos aos negócios. Enquanto não houver diversidade e redundância reais no sistema, cada interrupção afetará as organizações e as pessoas mais do que deveria”.
O CTO da StaryaAI reforça a importância de ter um plano B de comunicação. “Em um cenário de crise como este, a comunicação é vital. As empresas devem ter canais alternativos de comunicação, como uma página de status hospedada em uma plataforma totalmente separada ou o uso do WhatsApp Business, para informar clientes sobre a situação e manter a credibilidade”, conclui Vinicius Reis.
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