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O que a Copa do Mundo pode ensinar sobre resiliência cibernética
Sistemas de bilhetagem, plataformas de streaming, redes de telecomunicações... tudo está interligado numa das maiores operações digitais da história do esporte. Um incidente relevante em qualquer elo dessa cadeia pode gerar impactos operacionais, financeiros e reputacionais significativos.
A Copa do Mundo de 2026 inaugura uma nova era para o maior evento esportivo do planeta. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o torneio, distribuídas entre três países-sede: Canadá, Estados Unidos e México. A complexidade logística será sem precedentes. Serão mais cidades, mais deslocamentos, mais sistemas conectados, mais fornecedores e um volume gigantesco de dados circulando entre diferentes organizações e países.
Essa transformação oferece uma analogia interessante para os desafios enfrentados pelas empresas modernas. Assim como a Copa deixou de ser um evento concentrado em um único país para se tornar uma operação distribuída globalmente, as organizações também expandiram seus ambientes digitais. Hoje, os dados estão espalhados entre múltiplas nuvens, data centers, dispositivos móveis, aplicações SaaS e ambientes híbridos. O resultado é um ecossistema cada vez mais complexo de proteger.
A experiência recente mostra que grandes eventos esportivos se tornaram alvos prioritários para criminosos cibernéticos. Durante a Copa do Mundo de 2022, no Catar, especialistas registraram um crescimento expressivo de campanhas de phishing relacionadas à venda de ingressos, hospedagem, apostas esportivas e transmissões falsas. Diversos relatórios de segurança também apontaram tentativas de roubo de credenciais, disseminação de malwares e ataques direcionados aos fornecedores e parceiros do ecossistema do evento. Antes mesmo do início da competição, milhões de mensagens fraudulentas já circulavam explorando o interesse dos torcedores.
O cenário não foi diferente em torneios anteriores. Na Copa de 2018, realizada na Rússia, pesquisadores identificaram milhares de domínios maliciosos criados para imitar páginas oficiais, além de campanhas de engenharia social voltadas para turistas e empresas. Já nos Jogos Olímpicos de Tóquio e nos Jogos Olímpicos de Paris, eventos esportivos igualmente globais, autoridades relataram centenas de milhões de tentativas de ataques contra sistemas digitais ligados à organização das competições. A mensagem é: onde há grande visibilidade, há também uma concentração de ameaças.
A Copa de 2026 amplia significativamente esse desafio. O aumento de 32 para 48 seleções representa mais jogos, mais infraestrutura, mais credenciais de acesso, mais dispositivos conectados e mais parceiros compartilhando informações. Além disso, a operação distribuída entre três países aumenta a complexidade regulatória e tecnológica. Cada novo ponto de integração cria também uma nova superfície de ataque.
Não por acaso, especialistas já consideram a Copa uma das maiores operações digitais da história do esporte. Sistemas de bilhetagem, plataformas de streaming, redes de telecomunicações, aplicativos de mobilidade, hotéis, aeroportos e até sistemas de controle de acesso estarão interligados. Um incidente relevante em qualquer elo dessa cadeia pode gerar impactos operacionais, financeiros e reputacionais significativos.
Essa realidade também reflete o que acontece dentro das empresas. Muitas organizações operam hoje em ambientes distribuídos, conectando filiais, provedores de nuvem, parceiros e fornecedores em diferentes regiões do mundo. A pergunta deixou de ser "como evitar um ataque?" para se tornar "como garantir a continuidade do negócio quando um ataque inevitavelmente acontecer?"
É nesse contexto que o backup assume um papel estratégico. Historicamente tratado como uma ferramenta operacional, ele se tornou um componente essencial da resiliência cibernética. Quando um ataque de ransomware consegue ultrapassar as camadas de proteção e comprometer sistemas críticos, a capacidade de recuperação passa a determinar o tamanho do prejuízo e o tempo necessário para retomar as operações.
Entretanto, possuir cópias de segurança não é suficiente. Os ataques modernos frequentemente tentam comprometer os ambientes de backup, apagar registros de recuperação ou permanecer ocultos por semanas antes de serem detectados. Em muitos casos, as empresas descobrem que seus dados restaurados ainda carregam vestígios da invasão.
Por essa razão, cresce a adoção das chamadas Data clean rooms (DCRs). Esses ambientes isolados permitem restaurar, analisar e validar dados antes que eles retornem à produção. Em vez de correr o risco de reintroduzir códigos maliciosos ou arquivos comprometidos no ambiente corporativo, as organizações conseguem verificar a integridade das informações em um espaço seguro e controlado.
As DCRs representam uma evolução importante na estratégia de recuperação. O objetivo não é apenas restaurar dados, mas restaurar dados confiáveis. Em um cenário em que os criminosos utilizam inteligência artificial para automatizar ataques, desenvolver campanhas de phishing mais convincentes e acelerar a movimentação dentro das redes comprometidas, a confiança na recuperação tornou-se tão importante quanto a velocidade da recuperação.
A analogia com a Copa do Mundo é inevitável. Em um torneio distribuído por três países, com dezenas de seleções e milhões de espectadores, não basta ter um plano para responder a incidentes. É necessário garantir que qualquer retomada das operações aconteça de forma segura e validada. Da mesma forma, empresas que dependem de dados para operar precisam estar preparadas não apenas para resistir aos ataques, mas para recuperar rapidamente ambientes íntegros e livres de comprometimento.
À medida que eventos globais e organizações se tornam mais conectados e distribuídos, a resiliência passa a ser um diferencial competitivo. A verdadeira medida da maturidade em cibersegurança não está apenas na capacidade de impedir ataques, mas na capacidade de recuperar operações com rapidez, confiança e segurança quando eles inevitavelmente ocorrerem. Em um mundo cada vez mais digital, a vitória não pertence necessariamente a quem evita todos os incidentes, mas a quem consegue voltar ao jogo mais rápido do que os adversários.
Sobre o autor: Marcos Ferreira Gomes é diretor Brasil da Commvault. Marcos tem mais de 30 anos de experiência trabalhando em grandes empresas. Em sua função mais recente como Executivo de Vendas de Data Center, ele foi responsável por todo o espectro de vendas do portfólio de Data Center da Dell, abrangendo Armazenamento, Proteção de Dados, Recuperação Cibernética, Computação, Redes e Serviços Profissionais. Marcos estudou Administração de Empresas com ênfase em comércio internacional e depois se especializou em Administração de Instituições Financeiras - Bancos, ministrado pela PEC FGV.